Certificação do Conhecimento

Navegando pelas páginas do site da empresa Datasul (uma empresa brasileira de software ERP) cheguei a uma página chamada “Certificação do Conhecimento“.

Meu objetivo aqui não é avaliar as características desse serviço oferecido pela Datasul, mas o achado me permitiu relembrar um post que publiquei anteriormente em um blog interno da Promon a respeito da validade das certificações profissionais (como a certificação PMP, a MCSE e outras).

Decidi re-postar aqui esse texto, para alimentar futuras discussões.

Padrões são a salvação ou a perdição?

Normalmente não escrevo posts fazendo transcrição exata de textos. Em seu lugar, prefiro redigir os comentários e disponibilizar um link para o conteúdo original.

Farei uma exceção neste caso, para compartilhar um texto provocativo que recebi de um grupo de amigos com interesses em comum, a respeito dos perigos da adoção desmedida de padrões.

(O texto não enumera extensamente os benefícios da adoção desses padrões – mesmo porque há um grande número de artigos disponíveis na internet para fazê-lo.)

O texto (com a menção ao seu autor, ao final) segue logo abaixo. Resistam ao excesso de acidez nos comentários iniciais para chegar até a segunda metade do texto, em que os padrões são abordados🙂 .

A BÚSSOLA QUE VIROU MAPA.

Tá difícil achar gente que pensa. A inteligência é matéria prima raríssima.
E começa a morrer o principal atributo dos brasileiros: a imaginação. A imaginação, a criatividade, precisam de um repertório mínimo. Exigem PENSAR.
E as pessoas não são ensinadas nem motivadas a pensar. Pensar dói.
Resultado?

São cada vez mais raras as pessoas para as quais pensar é uma necessidade, um prazer. Pegue, por exemplo, um empreendimento que começou com 20 pessoas 20 anos atrás e que hoje tem 500, 1000, 5000. Um volume de gente assim, é impossível de ser administrado. Surgem então os chefes. A maioria, gente que não sabe pensar. Minimamente preparada pelas escolas e depois pelos programas de treinamento das empresas, sempre focados em melhorar a eficiência operacional. Raramente preocupados em motivar o pensar. O poder é distribuído… e as decisões passam a ser tomadas por dezenas, centenas, milhares de pessoas sem preparo. E esse fenômeno, em intensidades diferentes – conforme a infra estrutura educacional de cada país – é mundial.

Um dia, alguém descobre que a única forma de colocar esse exército de ignorantes na linha, é dar-lhes um roteiro. Faça isso e aquilo. Depois aquilo e isso. E começam a surgir os programas de qualidade. A ISO 9000 é a primeira que surge em grande escala. Colocada como exigência pelas grandes empresas para seus fornecedores, a ISO torna-se febre mundial e, num primeiro momento, realmente ajuda a colocar os processos das empresas em outro patamar, com um ganho de qualidade importante. E não é preciso muito tempo para que surjam outros programas, como QS, TPM, Seis Sigma, Semi-autonomia, PNQ… cada um mais exigente que o anterior. E é aí que mora o perigo. Aquele exército ignorante recebe a incumbência de gerenciar esses programas. E primeiro, surge a necessidade de montar estruturas para gerenciá-los. Custo. Depois vem um aumento agressivo da burocracia. Tempo e custo. E junto com isso, a tendência à colocar a certificação como um fim.
Um concurso. Vamos fazer uma mobilização de 60 dias. A gente ganha o certificado e depois volta ao normal…

E o pior: esses programas passam a ser interpretados como MAPAS e não BÚSSOLAS. A bússola indica o norte. Aponta a direção. E as pessoas podem criar seus próprios caminhos, longos ou curtos, tortuosos ou retos. Cada uma desenhando-o conforme sua necessidade. Mas para isso, as pessoas tem que pensar. Mas pensar, dói. E quando a gente não pensa…não pode usar bússolas. Tem que usar mapas.

Fórmulas prontas. Que digam exatamente o quê e como fazer. E todos aqueles programas ambiciosos são transformados em gigantescos check lists que, se seguidos à risca, garantem consistência de resultados. Qualquer medíocre tem então um roteiro a seguir. E se todos os medíocres seguirem o roteiro, a empresa anda nos trilhos. Fica, digamos, na média…

Acontece que neste nosso mundo, o valor está justamente nas pessoas que encontram caminhos diferentes, que fogem do roteiro, que improvisam, que criam… Pessoas que dificilmente convivem com mapas acabados. Pessoas que dificilmente surgem em ambientes burocratizados, amarrados, controlados.
Essas pessoas lidam com valores intangíveis. Entendem que o diferencial está nos atributos que envolvem as sensações, as percepções, o relacionamento.

Sabem que não será a qualidade do produto ou a eficiência dos processos que garantirá o sucesso. Será a inteligência, a ATITUDE das pessoas. Mas inteligência exige pensar. E como anda difícil encontrar gente que pensa…

Texto de Luciano Pires, autor de “BRASILEIROS POCOTÓ”

Meu único comentário, para não interferir na avaliação de vocês: “viva as bússolas !”. (Detalharei melhor meu ponto de vista quando os comentários começarem a surgir…)

Meus comentários posteriores ao mesmo post, após discussão com alguns colegas:

Eu acho que mapas são bons. Mapas garantem que pessoas que não conhecem o bairro consigam chegar ao seu destino. Mapas permitirão que em breve os carros circulem sozinhos pelas ruas, em piloto automático, como muitos já devem ter visto em um experimento da BMW (ou da Mercedes-Benz, não me recordo ao certo) em auto-estradas européias.

Os padrões representam as melhores práticas de um grande conjunto de pessoas, e por esse motivo vejo grande valor nos mesmos.

E uma vez que um padrão é adotado, ele se torna pré-requisito naquele mercado – não mais um diferencial. Assim, a adoção de padrões é inevitável. E pelo argumento anterior, é até mesmo desejável.

Não saber usar um mapa se torna uma desvantagem competitiva. Não possuir o mapa se torna inaceitável. Mas saber ler o mapa e entender sua mecânica e suas limitações – como diz o último parágrafo – passa a ser o diferencial competitivo.

Isso tudo soa óbvio🙂 Mas sabemos como é difícil diferenciar o que é aproveitável e o que não é quando adotamos o PMBOK, o ITIL, o CMMI e o outros padrões de referência. Isso, sim, exige inteligência – e produz o tal diferencial competitivo.

2 pensamentos sobre “Certificação do Conhecimento

  1. Marcelo, concordo parcialmente contigo – mapas são bons, mas bíblias são ruins. E é assim que a maioria lê, de forma simplista, uma proposta metodológica. Reduz o mapa a dogmas, com uma visão mecanicista.

    O problema não está só no estímulo que o mercado dá a isso. Está também nas próprias propostas metodológicas, que se querem bíblias. Logo, não é só produto de quem lê atravessado, mas também de quem produz um roteiro acreditando que está escrevendo as tábuas da Lei.

    Digo isso porque estou envolvido o tempo todo com metodologia para projetos de intranets e portais corporativos. Nestas andanças e reflexões, tenho percebido que quando o autor quer que seu mapa seja percebido mais como bússola do que como bíblia, adota uma estratégia diferente – a produção de um kernel sólido e o estímulo a que se crie sobre ele. Já as certificações tradicionais têm um quê de proprietárias e baseiam seu modelo de valor no fato de serem o que há de melhor (sem contestações, sem um pensar a respeito… ).

    Quando a metodologia é criada em um modelo viral, similar ao do software livre, as chances de que seja vista como bíblia são poucas. Ela é “incompleta” ou beta por natureza. Reúne, sim, as melhores práticas – mas sabe que o mundo e as situações são dinâmicas e diferentes. Nos primórdios da GC, houve quem montasse enormes – e inúteis – bancos de melhores práticas, pensando que seriam replicáveis automaticamente. Deram com os burros n´água. Mas as certificações parecem não ter aprendido nada com isso.

    Obs: muito bom o seu blog, vou incluí-lo no meu blogroll – parabéns!

  2. Pingback: Metodologia: bússola, mapa ou bíblia? « Intra 2.0

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s