Experimentando a Gestão do Conhecimento Pessoal

Que tal experimentar fazer uma gestão do conhecimento pessoal?

Estou arquitetanto um método para aplicação pessoal da GC que seja integrável com uma GC corporativa e decidi agilizar um pouco o seu desenvolvimento publicando-o aqui. Assim, além de experimentá-lo pessoalmente talvez consiga ajuda de um leitor corajoso. Peço desculpas antecipadamente por ser ainda um roteiro rústico. 

A gestão do conhecimento pessoal é usualmente chamada de PKM (Personal Knowledge Management). Já comentei com diversos amigos e alunos que no contexto corporativo acredito fazer mais sentido interpretar “PKM” como “PK Management” que como “Personal KM“. Afinal, faz sentido para a empresa criar meios para a apoiar seus colaboradores na gestão do seu precioso capital intelectual, enquanto não parece interessante promover métodos pessoais de gestão do conhecimento – métodos que são de uso exclusivo pessoal.

Este post, porém, se inicia no caminho oposto. Proponho abaixo um método de gestão do conhecimento para uso pessoal – que, se adotado de forma padronizada e relacionada à estratégia em uma organização, poderá se tornar uma ferramenta de “PK Management“.

O principal conceito que adotei foi o de Capital Intelectual. Após muito ponderar, concluí que assim como as organizações possuem um acervo de ativos intangíveis (chamados “Capital Intelectual” e classificados em  capital estrutural, capital humano e capital de relacionamento), também assim ocorre com os profissionais individuais.  Temos valor para nossos empregadores, nossos círculos de relacionamento profissional e para o mercado porque temos esses capitais intelectuais que caracterizam nossa capacidade de realização.

A esta altura cabe esclarecer: não estou defendendo o enclausuramento do conhecimento individual, mas sim o auto-conhecimento para que cada profissional assuma as rédeas de sua evolução. Compartilhar ou não deve sempre ser uma decisão ganha-ganha – e eu estimulo o compartilhamento porque acredito que há inúmeras formas de se ganhar algo em troca (mesmo que seja a sensação de fazer o bem).

O “método”

Criei uma singela ficha onde é possível enumerar seus capitais intelectuais, divididos nos três tipos. Sugiro preencher uma ficha para cada contexto em você atua (afinal, você atua em diversos contextos diferentes fazendo uso de um leque de capitais diferentes em cada um deles). 

No meu caso, por exemplo, considero meus quatro principais contextos: Gerenciamento de Projetos, Tecnologia da Informação, Gestão do Conhecimento e Docência.

Algumas orientações que me ocorreram:

  • Uma ficha como a abaixo deve ser preenchida para cada contexto de sua vida profissional
  • De forma similar à análise do Capital Intelectual das organizações, considere:
    • Como capital estrutural – suas certificações, suas ferramentas, suas bibliografias, seus métodos, etc.
    • Como capital humano – suas competências (entendidas como a composição de conhecimentos, habilidades e atitudes em dada especialização)
    • Como capital de relacionamento – seu networking
  • Os capitais podem ser identificados como desenvolvidos (D), em desenvolvimento (E) ou a desenvolver (A)
  • Capitais estruturais e de relacionamento podem ser “emprestados” das organizações com que você trabalha – o que significa que você pode perdê-los automaticamente quando deixar de fazer parte dessa organização; assim, sugiro identificar claramente a propriedade real do capital nesses casos
  • Cada item desenvolvido pode ser complementado por uma documentação a seu respeito
  • Cada item a desenvolver pode ser complementado por um plano de ação
  • Relacionamentos podem ser complementados por um diagrama em rede

Que tal experimentar? Eu gostaria realmente de conhecer opiniões sobre a utilidade desse instrumento na identificação dos capitais intelectuais pessoais e as perspectivas que essa identificação proporciona para a evolução da carreira profissional.

Agradeço-lhe antecipadamente. Vamos à tal da ficha e a alguns esclarecimentos filosóficos.

A ficha a ser preenchida para cada contexto:

Ficha de contexto

O que fazer depois do preenchimento das fichas a cada contexto?

Bem, o simples fato de preencher as fichas deve ter lhe proporcionado algum “insight“. Pode ser um “é só isso mesmo que eu sei?” ou um “é por isso mesmo que me pagam tanto!” – mas em qualquer dos casos você deve ter percebido os seus pontos fracos e fortes e se deparado com alguns capitais que não soube onde enquadrar.

Minhas recomendações neste método ainda em desenvolvimento: cuide com carinho das suas qualidades (pontos fortes), cubra suas lacunas (pontos fracos) e deixe os capitais que não se enquadram para as horas vagas. 

Respostas a algumas perguntas prováveis que podem lhe ocorrer

Qual é a utilidade do PKM para a gestão do conhecimento corporativo?

  • A organização pode estimular a PKM para que o profissional não perca conhecimento ou para que produza o conhecimento necessário
  • A prática disseminada da PKM pode ser uma forma bottom-up de diagnóstico do escopo da GC corporativa (global ou departamental)
  • A PKM pode identificar capitais que a empresa precisa desenvolver para ceder aos profissionais (processos, acervos, relacionamentos, cursos)

Como a gestão do conhecimento corporativa se integra com a gestão do conhecimento de um indivíduo?

  • A organização e o indivíduo terão alguns capitais estruturais e de relacionamento em comum
  • Alguns dos capitais humanos do indivíduo farão parte do capital humano da organização
  • As competências organizacionais mapeadas na gestão do conhecimento corporativo indicarão os conhecimentos individuais de valor
  • A organização pode agregar capitais que são pré-requisitos para desempenho das funções do profissional:
    • Fornecimento de capitais transferíveis previamente elaborados pela empresa:
      • capital estrutural (processos e ferramentas elaborados pela empresa)
      •  capital de relacionamento (contato com clientes, fornecedores, parceiros e outras entidades)
    • Indicação de competências que devem ser adquiridas pelo próprio profissional:
      •  capital estrutural (títulos e certificações)
      • capital humano (cursos)
    • Promoção de experiências necessárias ao bom exercício das funções:
      •  capital humano (participação em projetos, liderança de equipes e outras experiências práticas)

A PKM é o mesmo que a gestão de competências ou o planejamento individual de carreira?

  • Não, porque esses instrumentos abordam apenas a construção de competências enquanto a PKM aborda os três tipos de capital intelectual
  • Os três tipos de capital intelectual em conjunto representam mais adequadamente os motivos pelos quais o profissional tem valor para a empresa

Por que um profissional deve se preocupar em manter uma PKM?

  • Para auto-conhecimento – saber por que as organizações se interessam por sua contribuição
  • Para identificar lacunas em seu desenvolvimento profissional, auxiliando no planejamento individual de carreira
  • Para formar outros profissionais (por necessidade / por altruísmo)
  • Para saber o que deve proteger para si (sendo este um péssimo motivo sob a ótica da GC corporativa)

É preciso possuir os três tipos de capitais?

  • Com certeza todo profissional possui capital humano; o profissional é importante por possuir competências e experiências relevantes
  • O profissional pode não possuir capital estrutural, mas sua produção é importante para a preservação e evolução do conhecimento
  • O profissional provavelmente possuirá capital de relacionamento, representado pelos contatos necessários à execução de suas funções

Por que registrar conhecimento em forma explicita (Capital Estrutural)?

  • Para que você mesmo não os perca
  • Para liberar seu potencial (seu tempo, sua memória, sua intelectualidade) para atividades de criação
  • Para que outros possam lhe ajudar nos picos de demanda – fazendo uso dos instrumentos que você criou
  • Para que você possa asumir outras posições – pois o processo é delegável
  • Para contribuir para a bem coletivo

Por enquanto é isso. Vamos ver aonde podemos chegar.

11 pensamentos sobre “Experimentando a Gestão do Conhecimento Pessoal

  1. Olá,

    Gostaria de saber se este método já foi usado em alguma empresa? Caso sim, poderia me falar sobre o retorno?

    Muito obrigada!

    Flávia Domingues

  2. Olá, Flávia.

    Não, infelizmente ainda não propus sua utilização a nenhuma organização – nem mesmo àquelas com que trabalho.

    É um método ainda jovem, desenhado no início deste ano, e ficarei mais confortável em apresentá-lo para adoção corporativa quando tiver alguns feedbacks de usuários voluntários.

    Por favor observe que não se trata de nada que eu deseje aperfeiçoar para vender depois, mas sim uma tentativa de minha parte de criar algum instrumento concreto de trabalho (público, hoje e sempre) para essa especialidade.

    Espero conseguir o retorno e a contribuição dos internautas para seu aprimoramento – ou sua substituição por um método melhor, quem sabe – passsando aí sim a contribuir de fato para sua adoção corporativa devidamente respaldada por recomendações de erros e acertos.

    Você me ajudará muito se puder individualmente ser um desses usuários.

    Um abraço.

    Marcelo Yamada

  3. Pingback: Livro on-line gratuito: Introdução aos Metadados, Edição On-line, versão 3.0 « M.Y.GC

  4. Pingback: Da Gestão Pessoal do Conhecimento para a Gestão Social do Conhecimento « myGC :: Gestão do Conhecimento

  5. Olá Marcelo,

    Acho vc uma pessoa brilhante. Mais uma vez vc me provou que estou certa. Falta-nos muitos instrumentos para chegar a esta percepção / visão:

    Os três tipos de capital intelectual em conjunto representam mais adequadamente os motivos pelos quais o profissional tem valor para a empresa.

    Busca-se ensinar o profissional a ter VALOR para a empresa mas não se tem métodos para ensinar o caminho com esta abrangência que vc tão bem coloca.

    Vc formulou um que me parece ESPECIAL. Acho que cada um deveria tentar colocar em prática e, de preferência, compartilhar com vc os resultados. Se vc me permite, gostaria de colocar à disposição dos meus alunos de Gestão de Pessoas.

    Abs

    • Oi, Rejane. Obrigado pela visita e pelo feedback!

      Fique aa vontade para aplicar este método em sala. O processo de preenchimento eh uma grande oportunidade de auto-conhecimento. E com os comentarios de seus alunos podemos torna-lo muito melhor!

      Um abraco.

      MY

      • Ótimo! Tenho uma prática de auto-conhecimento mas que nem de longe tem a abrangencia da que estás propondo. Depois passarei para vc todas as informaçoes obtidas.

        Obrigado por pensar GRANDE!

        Um grande abraço

  6. Pingback: Como sobreviver a um período de ausência no mercado de trabalho? « myGC :: Gestão do Conhecimento

  7. Obrigado pelas notas, e pelos insights contidos nelas. Me parecem muito interessantes. Cheguei a elas via KM4Dev.
    Vejo nelas, principalmente, o componente de documentação, mas não discuto a sua importancia.
    Reflectindo como os diversos profissionais organizam o seu conhecimento, descobri que podem haver muitas formas: casos (conhecimento organizado em torno a um proceso e situação), estorias (conhecimento montado na sequência de uma experiencia), fichas técnicas (conhecimento transformado em instrumentos de estudo ou desenho, como estas orientações para manejar o conhecimento pessoal), reflexões teóricas (conhecimentos destilados en conceitos e estructuras causais), e mapas de fontes (conhecimentos curados de fontes externas). Acho que existem outras formas, mas essas foram as que eu ja observei trabalhando com gerentes, médicos, engenheiros, etc.
    Claro que isso corresponde somente a parte explícita do que sabemos. No campo do tácito, sempre lembrando de Polanyi, reconheço como importante as analogias com as quais interpretamos aquilo que não entendemos, e as nossas baterias de crenças com que pensamos e atuamos.
    Também aprendi que migrar de uma forma de entender a outra é, quase sempre, uma fonte de ansiedade. Razão pela qual temos a tendencia ao fechamento cognitivo. Por isso dou especial importancia as perturbações cognitivas e aos processos de ‘reframing’ como formas de expandir o meu universo de conhecimentos.
    Uma vez mais, obrigado

    • Oi, Sebastião. Muito obrigado pela sua visita e por seus comentários.
      É muito rica sua compilação a respeito dos artefatos pessoais para registro do conhecimento. Obrigado, mais uma vez. Ela será de grande auxílio àqueles que chegarem à etapa de “como fazer?”.
      Também considero muito atraente a prospecção a respeito dos processos individuais de aprendizagem e de transmissão de conhecimento tácito (blasfêmia, para alguns?), e essa discussão tende a se desviar facilmente para a psicologia e a pedagogia.
      Tenho tentado nas últimas séries de posts adotar uma postura mais concreta e facilmente replicável no mercado corporativo, ainda que correndo o risco de ser reducionista de tempos em tempos.
      Conversas como estas, nestes comentários, me permitem ao mesmo tempo manter também discussões mais aprofundadas.
      Obrigado, novamente, e um abraço!

      • Obrigado pela resposta. Todos escrevemos para algum público, e as características cognitivas desse público influenciam a nossa forma de escrever, trazendo vantagens e desvantagens. Os autores dedicados a inteligencia artificial (Dedre Gentner, por exemplo) sabem a importancia crucial das analogias tácitas.
        Um abraço

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